sábado, 12 de setembro de 2026

Igreja sem povo: Itália e Brasil diante do esvaziamento das assembleias.


Uma reflexão de Pe. Sérgio Luís Pedrotti

Altares erguidos, missas celebradas, mas cada vez menos fiéis nos bancos. O que antes parecia ser apenas a crise das vocações sacerdotais revela-se, hoje, como parte de um fenômeno mais amplo: o esvaziamento da participação comunitária. Tanto na Itália quanto no Brasil, o catolicismo vive uma transição silenciosa que altera o equilíbrio histórico entre clero e povo, embora com ritmos e características distintas.

Na Itália, por décadas, o debate concentrou-se na falta de padres e na dificuldade dos seminários em atrair novos candidatos. Mas os números mostram que o problema vai além. Segundo o Instituto Nazionale di Statistica (ISTAT), apenas 18% a 20% da população participa regularmente da missa dominical, contra mais de 30% nos anos 1980. Entre os jovens, a queda é ainda mais acentuada. Embora cerca de 70% dos italianos se declarem católicos, menos de um em cada cinco frequenta a igreja com regularidade. O contraste é evidente: a identidade religiosa permanece, mas a prática comunitária se esvazia. As igrejas não estão fechadas, mas estão cada vez mais vazias; os altares não foram abolidos, mas se veem diante de assembleias rarefeitas.

No Brasil, maior país católico do mundo, o movimento é semelhante, mas com contornos próprios. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, apenas 56,7% da população se declara católica, o menor índice desde 1872. Em 1970, mais de 90% dos brasileiros eram católicos; em 2010, 65%. A queda é contínua e visível. Enquanto isso, as diferentes denominações evangélicas já representam 26,9% da população, com crescimento acelerado nas últimas décadas, e cresce também, neste público, a parcela dos que evoluem para o grupo dos sem religião, sobretudo entre jovens. Aqui, o desafio não é apenas a diminuição da prática dominical, mas a perda da hegemonia cultural do catolicismo, que já não ocupa o mesmo espaço central na vida social. Em muitas cidades, o que antes era um domingo marcado pela missa agora se tornou um dia de lazer ou de culto em outras igrejas.

As semelhanças entre os dois países são claras. Catequistas jovens são cada vez mais raros, conselhos pastorais permanecem com os mesmos rostos há décadas, e voluntários da caridade sustentam setores inteiros sem renovação. Em ambos os contextos, a secularização não aboliu a fé, mas a privatizou. O domingo deixou de ser eixo identitário e tornou-se tempo livre. A pertença religiosa tornou-se intermitente e opcional, reduzindo o compromisso estável. Solicita-se o sacramento, mas nem sempre se oferece tempo ou responsabilidade comunitária. E uma catequese voltada apenas para a preparação sacramental acaba reforçando esse caráter episódico da fé.

As diferenças, porém, são significativas. Na Itália, a identidade católica ainda é majoritária e culturalmente enraizada, mas a prática regular é mínima. No Brasil, a identidade católica já não é majoritária em algumas regiões, e o crescimento das igrejas evangélicas redefine o mapa religioso. Enquanto na Itália o desafio é manter viva uma tradição que se esvazia por dentro, no Brasil o desafio é enfrentar a concorrência de novas formas de religiosidade cristã e lidar com a perda de centralidade cultural. Em outras palavras, na Itália a fé se mantém como identidade, mas sem prática; no Brasil, a prática migra para outros espaços religiosos.

O risco real, tanto em Roma quanto em São Paulo, não é apenas o altar sem padre, mas o altar diante de uma assembleia rarefeita. Agrupar paróquias pode ser solução administrativa, mas não gera automaticamente participação. Uma comunidade intermitente não sustenta estruturas pensadas para estabilidade. O catolicismo não desapareceu, mas tornou-se mais rarefeito e culturalmente marginal. As paróquias sobrevivem graças a uma minoria fiel e generosa, em geral de idade avançada. Se as curvas demográfica e religiosa continuarem a cair juntas, o problema central será: qual povo sustenta a vida eclesial?

Itália e Brasil vivem, cada um a seu modo, uma passagem silenciosa: da Igreja de massa para uma minoria praticante. A crise das vocações é apenas o sintoma visível de uma transformação mais profunda. O desafio não é apenas formar bons padres, presentes e atuantes na formação de comunidades missionárias, mas reconstruir comunidades vivas e comprometidas, capazes de sustentar a fé como experiência coletiva e não apenas como identidade declarada.

Referências:

Instituto Nazionale di Statistica (ISTAT), dados sobre prática religiosa na Itália, 2024.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Censo Demográfico 2022.